Estéticas das Periferias 2013

Por Larissa Silva

Vem aí o Estéticas das Periferias 2013, em sua terceira edição o encontro (antes seminário) tem seu formato ampliado e com maior abrangência nas periferias da capital.

Estéticas das Periferias

O debate acontecerá em diversas rodas de conversas espalhadas pela cidade, incluindo programações culturais, shows, exposições, saraus, teatros e literatura. O hip hop tem um papel importante no encontro, fortalecendo o debate sobre a arte nas margens da cidade e a distância, não só física, mas também  social, que existe entre a periferia e o centro. Como diz os Racionais MC’s: “Só quem é de lá sabe o que acontece”.

O encontro tem a intenção de mostrar e discutir a arte que é produzida às margens do centro da cidade. Idealizado pelo Ação Educativa e com curadoria coletiva, essa edição terá como foco os processos criativos, o percurso imaginativo que dá sentido às obras de arte produzidas nas quebradas. A programação será orientada por quatro eixos principais: culturas negras, direito à cidade, produção e difusão cultural e cultura de paz.

É importante pensarmos no valor social e cultural que desse encontro. Enquanto as principais produções culturais se destacam no centro da capital, o Estéticas das Periferias leva um circuito cultural por toda cidade de São Paulo, alcançando as regiões marginalizadas e colocando em evidência a arte que é produzida por artistas independentes — que não estão sob o olhar da grande mídia.

Para Leonardo Escobar, do Ministério do Samba, que está presente pelo segundo ano consecutivo no encontro, “o Estéticas das Periferias é um momento de resistência, valorização e exaltação da arte feita nas periferias, pois põe em debate os temas mais relevantes, sobretudo para a cultura periférica. Esse ano, a construção coletiva do encontro envolveu os artistas, produtores e representantes dos espaços em um movimento de muita participação e solidariedade”.

Com mais de 150 atrações culturais, o evento tem abertura dia 27 de agosto no Auditório do Ibirapuera, com o espetáculo Orfeu Mestiço, Uma Hip Hópera Brasileira – Núcleo Bartolomeu de Depoimento, com referências de danças populares e da dança de rua, sob o comando da coreógrafa Lua Gabanini e cenografia de Daniela Thomas, participação especial de Jair Rodrigues, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Clarianas e Bloco Afro Ilú Obá De Min. E o encerramento será dia 01 de setembro com o show do Ministério do Samba, Dos Tambores ao Toca Discos – Erry-G e Osvaldinho da Cuíca no Parque Belém.

Confira a programação no site do evento: www.esteticasdaperiferia.org.br/2013

577 milhões de motivos para dizer não ao governo do PSDB em São Paulo

Por Cleyton Boson

Inaugurado em 1974, o metrô de São Paulo foi, durante muitos anos, a corporificação do sonho paulista de ser um estado moderno, rico, eficiente e seguro. Embutido neste sonho, estava um outro de ser o modelo de desenvolvimento social e econômico para todo o Brasil, locomotiva não apenas da economia, mas também da política nacional. Durante anos, entrar em uma estação ou em um trem do metrô de São Paulo era sentir-se seguro e moderno e compartilhar o orgulho de ser paulista ou estar em São Paulo. Morar ao lado de uma estação de metrô era o mesmo que estar conectado à alma da capital do estado mais poderoso da América Latina.

Os 20 anos de governo do PSDB no estado mudou o significado que o metrô tinha para os paulistas e para o Brasil, hoje ele é visto como ineficiente, inseguro, superlotado e caro. O metrô sintetiza a tragédia que tem sido a administração tucana para quem vive no cada vez menos rico, menos moderno, menos seguro e cada vez mais caro estado do país. São Paulo se transformou em símbolo de caos urbano, com engarrafamentos, falta de transporte público e enchentes; violência, com crime cada vez mais organizado, polícia corrupta e arrastões até mesmo em bairros ricos; e corrupção, como no caso do superfaturamento de 30% em trens e metrô que lesou os cofres públicos em 577 milhões de reais.

Quinhentos e sententa e sete milhões de reais são só a ponta de um iceberg chamado PSDB que tirou, não apenas o metrô dos trilhos (literalmente, pois em menos de uma semana, aconteceram dois descarrilamentos de trem na CPTM e no Metrô), mas também todo o estado saiu dos trilhos. O governo tucano aumentou abusivamente as tarifas do transporte público e piorou, também abusivamente, a qualidade do serviço; não satisfeito, piorou também a qualidade do transporte privado, com as mais caras e desrespeitosas tarifas de pedágio de todo o país. Tudo isso para beneficiar algumas empresas amigas do setor de transportes e alimentar projetos pessoais de alguns membros do PSDB. O propinoduto do Metrô de São Paulo é didático para entender esse processo:

Segundo documentos e depoimentos de um executivo de uma empresa envolvida no esquema, a quadrilha formada por empresas e membros do PSDB do Estado de São Paulo nos governos de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, superfaturou cada obra em 30%. Ou seja, de cada dez reais desembolsados com o dinheiro arrecadado dos impostos, os governantes tucanos jogaram nos trilhos apenas sete reais. Foram analisados 16 contratos correspondentes a seis projetos. Segundo o Ministério Público e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), somente nesses negócios, os prejuízos aos cofres públicos chegaram a mais de 577 milhões de reais.

Para encobrir os abusos de 20 anos de um governo corrupto, autoritário e ineficiente, o PSDB sempre contou com a conivência e a proteção da grande mídia, com seus jornalões e programas de televisão 24 horas por dia dispostos a jogar o lixo para debaixo do tapete e criminalizar os movimentos sociais e partidos políticos que se mobilizaram com denúncias ou atos públicos contra os desmandos tucanos no estado.

Chegou a hora de dar um mega não a tudo que o governo do PSDB representa para São Paulo. Um mega não à corrupção, ao autoritarismo e à cara de pau do governo Alckmin.

O beijo do Sheik e a homofobia latente do futebol

Por Marcelo Hailer

Domingo (18), o jogador do Corinthians, Emerson Sheik, para comemorar a vitória de seu time sobre o Coritiba, postou uma foto dando um selinho em seu amigo, o chef de cozinha Isaac Azar, dono do bistrô Paris 6. As reações foram imediatas e, claro, revelaram algo que todos estão carecas de saber: que o futebol (não apenas ele) é uma arena profundamente machista e homofóbica. E prova disso foi o ato de cinco torcedores que foram hoje (19) na porta do Centro de Treinamento do Corinthians carregando faixas com os seguintes dizeres:  “Viado não!”; “P.Q.P… Aqui é lugar de homem”.

As palavras escritas nas faixas dos torcedores da Camisa 12 apenas deixam claros marcadores comuns do mundo futebolístico, mas podem ser estendidas: o de que o futebol é o lugar do “homem de verdade” (macho, ativo, reprodutor e heterossexual) e não lugar dos viados (que não são considerados “homens”) e também não é o lugar de mulheres, visto que o machismo impera dentro e fora do campo. E para isso basta ver o “destaque” que se dá ao futebol feminino, tanto por parte dos clubes como por parte dos meios de comunicação especializados.

beijosheik

Mas antes de avançarmos é interessante nos determos a algumas declarações dadas pelos “manifestantes”. Ao UOL Esporte, Marco Antônio, membro da diretoria da Camisa 12, declarou o seguinte: “A nação inteira está freneticamente indignada. Pode até ser a opção dele, mas nós estamos sempre tirando sarro dos bambis (modo pejorativo com o qual é chamada a torcida do São Paulo). O mínimo que ele tem de fazer é um pedido de desculpas”. Disse mais: “A gente não quer ser homofóbico, mas tem de ter respeito com a camisa do Corinthians. Aqui não vai ficar beijando homem. Hoje são 5, amanhã são 30 e depois 300. Vamos fazer a vida dele um inferno”.

A declaração do membro da diretoria da Camisa 12 ao UOL Esporte só não é crime por que a PLC 122/2004, que tramita há nove anos no Congresso Nacional, ainda não foi aprovada, visto que a homofobia não é exclusividade do mundo futebolístico: ela também está alojada no Congresso com inúmeros representantes que declararam guerra aos direitos civis das pessoas LGBT e das mulheres.

Esse grupo, que defende o direito de ofender os seus adversários com expressões que remetem à homossexualidade e à passividade (seja masculina ou feminina), representa, infelizmente, uma boa parcela das torcidas do Brasil e não apenas a corintiana. Interessante seria (e até mesmo paradigmático) se outras torcidas, do Corinthians ou não, declarassem apoio ao jogador. Mas isso é utópico, visto que nenhum jogador ou torcida quer estar associado à homossexualidade. Um selinho para criar novos paradigmas?

…e os homofóbicos de plantão

Se por um lado o selinho de Sheik em seu amigo desnudou completamente a homofobia latente do mundo esportivo, por outro pode ser uma grande oportunidade para os dirigentes dos clubes, para o Ministério do Esporte e até mesmo as torcidas repensarem suas posturas e deixarem para trás esta pedagogia do ódio escamoteada no mundo esportivo, pedagogia que espanta uma série de jovens ou que faz com que estes, quando ascendem na carreira, vivam as suas sexualidades dissimuladamente.

Devemos nos lembrar que no ano que vem o Brasil vai sediar a Copa do Mundo. Quer melhor momento do que esse para trazer à luz a questão do machismo e da homofobia no mundo do futebol? Se o fatídico selinho incomoda tanto é porque os machos alfas do futebol juravam que suas arenas estariam livres desses “viados”. Na verdade, eles dissimulam tal questão, pois sabemos que o mundo futebolístico, assim como qualquer outro que envolva corpos desejantes, está repleto de sujeitos iguais que se relacionam entre si sexualmente.

Mas as torcidas não estão sozinhas em sua propagação da homofobia. São incentivadas socialmente e também comercialmente. Pois a teoria mais comum que se escuta a respeito de jogadores famosos (mas também de atores, por exemplo) é que, se estes “saem do armário”, nenhuma marca e ou patrocinador vai querer estar associado a um sujeito homossexual e sua carreira vai pro buraco; acreditam que isso prejudica a marca.

Ora, seria muito legal que neste momento algum produto (seus gerentes) declarasse apoio espontâneo ao jogador em questão. Porém, esta lógica perversa (social e comercial) é que faz com que cenas deprimentes como a que aconteceu hoje no CT corintiano se repitam ad eternum.

Por que transporte 24 horas?

Por Bárbara Lopes

Desde as eleições municipais de 2012, vimos propondo e debatendo a circulação 24 horas de ônibus em São Paulo. Durante a campanha eleitoral, a recepção à proposta era muito positiva. Não precisávamos argumentar sobre a importância da ampliação de horário. Os próprios usuários com quem conversávamos lembravam várias situações – em diversos casos, que eles mesmos vivenciavam – que justificavam a proposta. Uma amostra da força dessa demanda está na inclusão, pelo plano de metas da Prefeitura de São Paulo, de ônibus 24 horas. (Outra foi a campanha pelo Metrô 24 horas, que resultou em uma audiência pública, em que a companhia alegou que a proposta era inviável tecnicamente).

Ainda assim, um debate sempre apareceu ou ficou subjacente: se o foco do sistema de transportes deve ser o trabalhador, quem se beneficia do ônibus 24 horas? A primeira resposta para essa questão é o grande contingente de pessoas que trabalham à noite e de madrugada. São trabalhadores que fazem plantão em empresas de telemarketing e serviços de saúde, que estão no turno da noite de fábricas e galpões e, os mais lembrados, os que trabalham nos bares, restaurantes e casas noturnas de São Paulo. Como desdobramento disso, também podemos imaginar que um maior fluxo de pessoas à noite, por lazer, pode gerar mais empregos nesse setor.

Se essa resposta aparentemente resolve a questão, também esconde uma visão que merece ser discutida. Começando pelo fato de separar, como se fossem categorias distintas e sem intersecção, o trabalhador e o jovem que sai à noite. Em muitos casos, são as mesmas pessoas. Mas podemos considerar que não seja o caso da maioria: que trabalhadores trabalham e jovens que se divertem não precisam trabalhar. Assim, o transporte, como política pública, deveria atender aos primeiros e não aos segundos.

Esse é o ponto do qual discordo com mais veemência. O transporte, dentro de um conjunto de políticas, deve servir para combater esse abismo. É dar condições para que toda a população possa usufruir dos espaços culturais, do lazer, dos encontros com outras pessoas – e também da noite. O papel do Estado não pode ser simplesmente aliviar as condições de exploração, mas sim o de promover a dignidade e a cidadania, o que pressupõe o direito à cidade. Das lições a serem aprendidas com o Movimento Passe Livre, a principal é perceber o potencial revolucionário da mobilidade urbana.

O modelo de transporte público em São Paulo reflete essa visão que vê o trabalho como única atividade da população. Há hoje com dois tipos de contrato: as concessionárias, que atuam nas vias estruturais, fazendo o trajeto bairro-centro; e as permissionárias, que complementam o serviço fazendo trajetos dentro do bairro. Parece fazer sentido em uma cidade que tem mais ou menos o formato de uma cruz, mas só se não considerarmos a enorme dimensão territorial de cada região. O resultado é que, mesmo dentro do centro expandido, pode ser muito difícil chegar em um lugar relativamente perto. Ao mesmo tempo, não há condução à noite e, nos fins de semana, os ônibus se tornam raros.

Essa negação do direito ao lazer e à cultura é uma forma de manutenção da desigualdade social. Isso se torna mais evidente num momento em que a inclusão econômica e pelo consumo de uma parcela da população vai dando sinais de desgaste, que é uma das explicações para as manifestações de junho. Sabemos que pobreza não é apenas relacionada à renda, mas à privação de serviços públicos. Podemos pensar na exclusão de jovens negros e de periferia das universidades – principalmente das universidades públicas. Isso não vem só da baixa qualidade da escola, mas também da dificuldade de acesso a bens culturais.

Nesta quarta-feira, o prefeito de São Paulo sancionou a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, que prevê um projeto piloto de transporte 24 horas. Uma das ideias, segundo a notícia do UOL, é colocar ônibus fazendo o trajeto das linhas de Metrô de madrugada. É um bom começo, mas muito mais será necessário. O processo de criar as linhas, decidir o tipo de veículo e regras de funcionamento (os ônibus poderão parar fora do ponto? A duração do Bilhete Único poderia ser estendida?) depende de estudos técnicos, mas que devem ser conjugados com uma consulta sistemática à população. Assim, a cidade que não para pode começar a se mover em outra direção.

Textos sobre a política de transportes

Para aprofundar o debate sobre a política de transportes em São Paulo, reunimos aqui alguns documentos e textos. Se quiser sugerir outros, mande pelos comentários.

o reajuste foi anulado; e agora, para onde vamos?
João Whitaker
Não basta anular o aumento e tudo ficar como está, a prefeitura apenas lamentando-se do rombo que isso irá lhe causar. O prefeito Haddad tem a fantástica oportunidade, como bem lembrou Ermínia Maricato na reunião do conselho, de mudar a lógica da discussão das políticas públicas, e São Paulo pode tornar-se um exemplo disso, A começar por uma discussão ampla e séria sobre o transporte e as prioridades dos investimentos. Seria o melhor resultado da fantástica mobilização que o MPL iniciou, e que tomou proporções que certamente nem ele esperava. Sem deixar espaço, é claro, para os golpistas de plantão.
http://cidadesparaquem.org/blog/2013/6/20/haddad-anulou-o-reajuste-e-agora-o-que-vai-ser

Procurando entender a tarifa zero
Chico Whitaker
A Prefeita Luiza Erundina submeteu à Câmara, no dia 28 de setembro de 1990, um projeto de lei que surpreendeu a todos: ônibus à tarifa zero no Município de São Paulo. Trata-se de uma proposta do Governo Municipal, coordenada pela Secretaria Municipal de Transportes, atualmente sob a responsabilidade do Secretário Lúcio Gregori. A partir de então vêm se sucedendo debates e entrevistas no rádio, nos jornais e nas televisões, com opiniões favoráveis e contrárias. Nem todos, no entanto, têm tido acesso a informações completas sobre essa proposta que, na verdade, põe em discussão problemas centrais do funcionamento dos serviços públicos. Cabe, portanto, “procurar entender” todas as dimensões dessa iniciativa.
http://tarifazero.org/2011/08/25/procurando-entender-a-tarifa-zero/

Uma saída para o impasse em São Paulo
Antonio Martins
A partir de sexta-feira (14/6) à tarde, o prefeito Fernando Haddad reviu sua postura anterior e emitiu sinais de que está aberto ao diálogo com os movimentos que lutam por uma cidade para todos. A nova atitude, que revela saudável capacidade de autocrítica, abre espaço para buscar uma alternativa capaz de alcançar, ao mesmo tempo, três objetivos: a) suspender o aumento da tarifa de ônibus, num gesto simbólico de boa vontade; b) recolocar na pauta nacional a reforma tributária, um instrumento indispensável para construir metrópoles humanas e um país menos desigual; c) desencadear, em São Paulo, um amplo movimento pela garantia da mobilidade urbana, que irá muito além do debate da tarifa e articulará prefeitura e sociedade civil numa busca de soluções que pode repercutir em todo o país.
http://outraspalavras.net/posts/uma-saida-para-o-impasse-em-sao-paulo/

Tarifa zero
Paulo Sandroni
Durante o mandato de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (1989-1992) o Executivo enviou uma proposta de Tarifa Zero à Câmara de Vereadores. A ideia foi do Lucio Gregori então Secretario de Transportes coadjuvado pelo Jairo Varoli então Presidente do CET. Como Presidente da CMTC, empresa pública encarregada da operação e gestão do serviço de ônibus em São Paulo encampei imediatamente a proposta por reconhecer as enormes vantagens não apenas sociais, mas também econômicas e políticas que ela significava. Levamos a proposta à Luzia Erundina que imediatamente deu luz verde para que transformássemos a ideia em um projeto de lei a ser rapidamente encaminhado á Câmara de Vereadores. Percebendo o impacto do projeto e especialmente seus alcances políticos, a oposição que no momento mantinha maioria na Câmara de Vereadores rejeitou a proposta, e a tarifa zero não pode ser colocada em prática.
http://www.jornalggn.com.br/blog/tarifa-zero

Rede Nossa São Paulo apresenta propostas para transporte público da cidade
Documento com sugestões foi entregue na última terça (18/6) ao Conselho da Cidade. Entre as ações imediatas defendidas estão a abertura de todos os dados que envolvem os preços das passagens, a participação da União no rateio dos custos e a instalação do Conselho de Transportes
http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/46351

Planilha Tarifária do Sistema de Transporte Coletivo Urbano
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/transportes/transparencia/receita_e_despesas/index.php?p=150849

Diretrizes da Política de Transporte Coletivo em SP
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/comunicacao/arquivos/apresentacoes/tarifa.pdf

Radicalizar a democracia e transformar a política: breves impressões sobre as manifestações recentes

Por Gabriel Medina

As recentes manifestações ocorridas no Brasil foram a maior mobilização social ocorrida nas últimas décadas e talvez já tenham superado o movimento dos cara-pintada na campanha Fora Collor. No calor do momento, como se sabe, a compreensão de fenômenos desta natureza torna-se mais complexa, a separação entre novas e velhas formas de mobilização, organização e articulação torna-se mais difícil, daí a importância de um esforço mais concentrado de reflexão, principalmente para que possamos compreender como o potencial gerado pela população nas ruas pode acelerar a velocidade das transformações no país.

As mobilizações foram bastante positivas, chacoalharam toda a sociedade e pressionaram os governos e os parlamentos a darem respostas concretas para as ruas e para as redes. Estamos diante de uma oportunidade para aprofundar as mudanças em curso no Brasil há uma década, portanto, é importante também avaliar as contradições e os desafios impostos a partir desse momento.

Nos últimos anos o projeto democrático e popular provocou profundas transformações: forte crescimento econômico, ampliação do mercado formal de trabalho e fortalecimento do Estado, além de importantes avanços na distribuição de renda e na inclusão social. Este processo fez com que 40 milhões de brasileiros ascendessem socialmente a partir da ampliação do consumo e da renda. Contudo, faltaram políticas estruturantes no campo educacional, da saúde e da cultura, com capacidade de não apenas gerar consumidores, mas cidadãos críticos e ativos.

O crescimento das cidades e das regiões metropolitanas, acompanhado pela especulação imobiliária, pelo modelo rodoviarista e pela ausência da reforma urbana, intensificou os problemas vividos no dia a dia pelos cidadãos. Grandes deslocamentos do trabalho para casa, graves problemas de saneamento, serviços ruins de saúde e educação e ausência de equipamentos culturais e esportivos nas periferias não permitiram uma ampliação da qualidade de vida tal como o esperado. Ou seja, a vida melhorou da porta de casa para dentro, mas piorou da porta de casa para fora.

Portanto, mesmo que com importantes avanços no Brasil, há de sobra motivo para indignação e luta. Fica claro essa afirmação, quando analisamos o início do movimento recente, com a luta pela redução da tarifa dos transportes. O Passe Livre mobilizou-se em torno de uma causa justa: o alto custo do transporte no orçamento das famílias que vivem nas cidades, uma pauta de fácil compreensão e de alto apelo social. O estopim deste processo se deu com a forte repressão policial ocorrida em São Paulo, que sem nenhum controle e com o aval do governador do estado promoveu um show de horrores, iniciado na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antônia. Vale destacar: tais práticas violentas são corriqueiras nas periferias, principalmente nos bailes funks.

Entretanto, foi apenas a partir desse episódio, que inclusive atingiu jornalistas da grande imprensa, que as imagens ocuparam os principais veículos de comunicação e geraram um sentimento de solidariedade de milhares de jovens e da sociedade em São Paulo e no Brasil.

Erram aqueles que desqualificam os manifestantes por serem jovens da “classe média” e também aqueles que consideram um movimento conservador e com predominância da direita. É importante recuperar as lutas que promoveram transformações no Brasil como as Diretas Já e o Fora Collor, ambas protagonizadas por jovens de classe média, brancos. No entanto, existe um fenômeno interessante que vale a pena destacar: apesar de elevada escolaridade, em comparação com a maioria da população, a grande maioria dos que foram para as ruas é composta por trabalhadores mais do que por estudantes. Aliás, parte dos manifestantes são jovens que ascenderam socialmente com as políticas do período Lula/Dilma, e que reivindicam novas políticas para que seu direito de acesso à cidadania torne-se também um direito de acesso ao uso democrático das cidades.

Um aspecto que merece grande atenção está no fato de que a grande multidão que veio as ruas não possui representantes tradicionais e intermediários (partidos/organizações/sindicatos/entidades estudantis), trata-se de um contingente que veio para as manifestações a partir de articulações realizadas nas redes sociais. Esse é um fenômeno novo que talvez seja um dos mais difíceis de compreender e por isso tem provocado respostas equivocadas da esquerda, principalmente do PT.

É também verdade que pautas da direita entraram na multidão, contudo, a defesa de saúde e educação de qualidade, assim como transporte público, demonstram que existe uma forte demanda por mais Estado e políticas públicas. Ou seja, existe um desejo pelo aprofundamento das transformações surgindo das ruas e das redes.

Uma das poucas certezas que um momento como esse nos permite apontar está na constatação de que há um clamor popular por modificações no modelo democrático atual, todas as instituições são colocadas em xeque, da esquerda à direita, partidos e movimentos sociais tradicionais estão sob avaliação.

A reação violenta de grupos de direita infiltrados, contrários à presença da esquerda organizada, com forte apoio da massa, assusta e preocupa. Contudo, a resposta me parece bastante diferente do que tradicionalmente a esquerda sugere. Ligar o carro de som e empunhar as bandeiras para disputar o movimento a fim de trazê-lo para a esquerda tem sido uma estratégia bastante usual e muito equivocada, afinal, o cenário pede menos um embate de quem pretende dirigir o movimento e mais a agregação de quem se dispõe a realizar uma efetiva disputa de hegemonia.

No atual momento é preciso desconfiar de todas as fórmulas prontas e receitas velhas conhecidas. Para dialogar com este novo fenômeno, que vem se constituindo há pelo menos 13 anos, é preciso paciência e ousadia. Paciência para compreender uma nova linguagem política. Ousadia para iniciar a auto-crítica acerca de como a acomodação institucional e a burocratização tem limitado a criação de novas respostas, mesmo em partidos sensíveis à voz das ruas como é o caso do PT.

É também muito importante apresentar uma nova agenda para os nossos governos democrático-populares. A reclamação sobre a tarifa dos transportes, o comportamento dos meios de comunicação tradicionais e das novas redes sociais, assim como a insatisfação com relação à classe política nos obriga a pensar, no âmbito federal, em questões fundamentais como a justiça tributária, a democratização da comunicação e a reforma política, e no âmbito municipal nos impõe o desafio de articular respostas que passam, por exemplo, pelas políticas de participação e de juventude. Este é o momento de renovar a esquerda radicalmente.

A juventude que está nas ruas não aceita mais ser representada por este modelo vertical de política, mediado por lideranças burocráticas e/ou com concepções vanguardistas. Essa juventude quer ser ouvida para valer, quer participar da política de verdade. Essa juventude está convocando a sociedade brasileira a construir instituições mais participativas, mais permeáveis e mais transparentes, sua força está na sua pluralidade. Não é possível dirigir e organizar a pauta dessa multidão nos marcos tradicionais da política, o que devemos fazer é nos somar, nas ruas e nas redes, a essa voz coletiva que não quer apenas falar, mas quer sobretudo decidir.

Fonte: http://novo.fpabramo.org.br/content/radicalizar-democracia-e-transformar-politica-breves-impressoes-sobre-manifestacoes-recentes

Maconha e a Descriminalização

Foto por NINJA

Foto por NINJA

Por Larissa Silva

A Marcha da Maconha levou aproximadamente 10 mil pessoas a ocuparem as ruas de São Paulo no último dia 08 de junho. A manifestação reflete uma importante luta pela descriminalização da maconha.

Considero essa batalha uma das mais importantes que enfrentamos atualmente no Brasil. Temos urgência em novas políticas de drogas, que sejam menos moralistas e reflitam direitos humanos.

A criminalização das drogas é um problema de segurança, saúde pública e direitos humanos. Mais do que a luta pelo direito de fumar maconha (que qualquer médico ou cientista pode atestar ser menos danosa do que o álcool e o tabaco, que são drogais legais), essa é uma luta social.

Milhares de jovens, principalmente negros têm sido presos pelo uso e venda da maconha, sendo encarcerados por uma falsa ameaça à sociedade. O encarceramento rouba a oportunidade do jovem se desenvolver socialmente e leva o governo a investir dinheiro numa punição desnecessária. Essa que promove ainda mais a desigualdade social e o racismo. Porque dificilmente você encontrará jovens de classe média sendo presos pelo uso e venda da maconha, esses que têm recursos financeiros para arcar com bons advogados que resolvem facilmente esse tipo de “punição”.

Assim como a internação compulsória também não deve ser um caminho para uma nova política de drogas. Sabendo que nos casos de internação, existem várias comunidades terapêuticas e religiosas com ausência de fiscalização do governo e onde já aconteceram diversas denúncias de maus tratos e abusos. É importante entender que o tratamento ao vício da droga deve ser separado da vida religiosa. O Brasil é um país laico e precisamos tratar a adição como problema de saúde.

As políticas devem ser desenvolvidas em sintonia com as políticas de saúde mental e fortalecer o legado da luta antimanicomial. Movimento esse que conquistou a substituição de hospícios e manicômios por novos equipamentos de saúde que estimulam o convívio familiar, social e não o encarceramento. Novas estratégias devem ser pensadas, como a experiência dos ambulatórios de rua e de equipes de redução de danos direcionadas para regiões como a cracolância, contudo a premissa básica deve ser a promoção da autonomia e liberdade.

O Brasil possui a 6ª pior posição no ranking de mortalidade de jovens no mundo, tendo como causas principais, em primeiro lugar, os homicídios e, em segundo lugar, os acidentes de trânsito. De certa maneira, esses dois fatores possuem forte ligação com o consumo de drogas. É evidente que parte desses homicídios está vinculada as iniciativas de promoção ou tentativas de repressão ao tráfico de drogas efetuadas por polícias militares que abusam da violência e do despreparo, afetando em grande maioria os jovens negros das periferias do país. Assim a chamada “Guerras as Drogas” na verdade tem sido a guerra aos negros e pobres.

O recente Relatório de Drogas* realizado pela OEA – Organização dos Estados Americanos conclama os países membros a pensarem em novas políticas de drogas, sabendo-se que a  política proibicionista vinda de Washington (EUA) não tem reduzido o consumo e tráfico de drogas  nos países. O relatório revela existir uma tendência para a descriminalização das drogas nos países membros e que esse pode ser um caminho para a redução de processos criminais, encarceramento e isolamento social. Assim como reduzir a mortalidade, já que a situação ilegal das drogas é o principal motivo de overdoses, tanto pela incerteza da pureza do que se compra, como pelo fato que a ausência de regulações estimula-se o uso de adulterantes que podem ser perigosos. Em um regime legal regulado, as drogas vendidas seriam de pureza conhecida e seus ingredientes constariam na etiqueta do produto.

Apesar da OEA revelar uma tendência a descriminalização, no Brasil existe um projeto de lei bem conservador em andamento. No último mês de maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto da nova Lei Anti-Drogas, esse que aumenta a pena para traficantes e autoriza internação involuntária de dependentes químicos. A proposta ainda deve ser aprovada pelo Senado e sancionada pela presidenta Dilma Roussef. Se aprovada será um grande retrocesso para o país.

As pessoas, independente das classes, não deixarão de fumar maconha pelo fato dessa ser proibida. A legalização da droga pode gerar uma produção da mesma com controle de qualidade e mais saudável para o usuário. E as pessoas que usam apenas maconha teriam menos contato com outras drogas, pelo fato de não ser necessário ir até pontos de tráfico para fazer a compra.

Atualmente no Brasil, sete ex-ministros da justiça (Nelson Jobim, José Carlos Dias, José Gregori, Aloysio Nunes, Miguel Reale Junior, Márcio Thomaz Bastos e Tarso Genro) dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva apoiam a campanha a favor da descriminalização do porte de drogas para consumo próprio.

Na perspectiva medicinal, essa erva poderia ser utilizada no tratamento de doenças como câncer, pois além de estimular o apetite, a maconha também ameniza a sensação de dor do paciente. Em muitos países a maconha é usada como erva medicinal, inclusive nos Estados Unidos.

A proibição dessa droga é retrógada e moralista e não cabe mais numa sociedade que tem avançado na luta pelos direitos humanos. Esse não é um problema apenas para quem gosta de fumar maconha, esse é um problema que precisa ser pensado por toda sociedade brasileira.

*Relatório de Drogas – OEA

(http://www.oas.org/documents/por/press/reporte_drogas_OEA_POR.pdf)

20 centavos, mobilidade e liberdade

A esta altura, já está nítido que as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e metrô têm raízes muito mais profundas. Se, por um lado, expõem uma sensação de revolta generalizada, também é sintomático que essa revolta se expresse em uma demanda relacionada à mobilidade na cidade de São Paulo.

A privatização dos espaços, a desigualdade econômica e a violência institucional colocam barreiras indiscutíveis à circulação da população paulistana – e, em especial, da juventude. Por isso, é uma cruel ironia que ao tomar as ruas para protestar, seja justamente o “direito de ir e vir” a ser jogado contra eles. Como diz o professor Jorge Luiz Souto Maior:

“O Movimento Passe Livre tem o mérito, portanto, de nos forçar a colocar a questão do transporte público em pauta, para que todos tenham, de fato, o direito de ir e vir. Nesta linha da visualização social, é importante perceber que, mesmo considerando todas as dificuldades, facilmente verificáveis nas vias da cidade, a saída do transporte privado (cada um em seu carro, buscando caminhos alternativos), ainda é melhor – muito melhor – que o transporte público, o que nos força a reconhecer que o direito de ir e vir daqueles que, em virtude do desenvolvimento de um processo excludente advindo da desequilibrada divisão do trabalho e da especulação imobiliária, foram deslocados para periferias distantes e que dependem de transporte público tem sido ainda mais agredido: é fila no ponto; é ônibus que não para; é fila no trem; é trem que não chega; são ônibus e trens lotados, nos quais, durante as longas viagens, se intensifica a supressão da dignidade humana”.

Esse é um debate que precisa ser aprofundado. Seja com a melhoria dos serviços oferecidos – em que a Prefeitura vem atuando -, com uma auditoria rigorosa das concessionárias e permissionárias e com o retorno da ideia do subsídio ao transporte coletivo como política pública – distribuindo os custos entre usuários e não-usuários do sistema de ônibus, já que toda a cidade se beneficia.

O primeiro ponto é a transparência no cálculo da tarifa, para entendermos como o serviço pode ser tão caro tanto para a Prefeitura como para a população, mesmo sendo de baixa qualidade. É necessário controle social sobre os contratos com as empresas de ônibus. Nesse sentido, teve início o processo de licitação para a concessão das linhas de ônibus pelos próximos 10 anos. Precisamos exigir que todo o processo seja acompanhado por audiências públicas, com transparência e controle social.

Outra frente é aumentar subsídios e rever fontes de financiamento, com a taxação sobre o transporte individual com os recursos direcionados ao transporte público e ampliação progressiva de gratuidades, começando com beneficiários de programas sociais. Por fim, é também necessário melhorar a qualidade e ampliar o serviço, com controle rígido sobre a lotação e horários de funcionamento, ampliação de linhas 24 horas e aos finais de semana.

Essa discussão esbarra na ausência de mecanismos de participação população e de canais de reivindicação, discussão e decisão dos rumos das políticas públicas. Mais importante, para que tudo isso possa ser discutido precisamos de liberdade! A truculência com que a Polícia Militar atacou, na última quinta-feira, manifestantes, jornalistas e transeuntes e as detenções arbitrárias trazem à tona o desrepeito cotidiano aos direitos humanos e a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. É uma polícia que mata nas periferias, que atua com violência em reintegrações de posse, como no Pinheirinho. A acusação de formação de quadrilha imputada a manifestantes também não é novidade e é um desrespeito à liberdade de manifestação. Sendo assim, não dá para admitir a afirmação de que apenas na quinta-feira houve “excessos” da PM, quando há relatos anteriores apontando situações similares, ainda que em menor escala. Muito menos é aceitável uma comparação que coloque como simétricos os danos ao patrimônio causados por manifestantes e as agressões cometidas por policiais, que são agentes públicos e que utilizam um vasto arsenal.

O direito de ir e vir só será garantido de forma democrática quando repensarmos o modelo de mobilidade baseado no transporte individual e quando avançarmos na defesa da qualidade do transporte público.

O direito de liberdade de expressão e de manifestação só será garantido de forma republicana quando deixarmos de tratar movimentos sociais como caso de polícia e quando ampliarmos os canais de participação efetiva.

Na rua por uma outra cidade!